No nosso pequeno universo social conto com alguns conhecidos que, vez por outra, dividimos o status de amantes da sétima arte. Logo, há de se entender que divergências ocorrem, tanto em razão do gosto individual, quanto em decorrência do grau de conhecimento, muitas vezes técnico, que nos diferem. Sendo assim, as nossas conversações me fazem refletir acerca dos argumentos utilizados por alguns destes cinéfilos, sobretudo aqueles com formação acadêmica na área, onde, para eles, sempre existem predileções acerca de filmes e/ou diretores que enalteceram e perpetuaram movimentos sociais, políticos e, sobretudo, culturais através das suas obras, a exemplo de: Roberto Rosselini, Luchino Visconti e Vittorio De Sica, grandes cineastas do passado. Obviamente, se cito três diretores italianos integrantes do movimento cultural denominado Neorrealismo italiano (que encontrou a sua forma de expressão mais representativa no cinema) é, sem dúvida, pela grande admiração que dispenso ao movimento em si e, por entender que estes grandes mestres quantificaram com qualidade, cultura e informação, aquilo que é, essencialmente, entretenimento de massa. Todavia, o meu embate junto aos colegas que tenho a honra de discordar, prende-se ao fato de que, hoje, temos que acompanhar os processos evolutivos através das obras dos discípulos, admiradores e seguidores destes fantásticos precursores para não ficarmos presos a uma eterna revisita a “I Bambini Ci Gurdano” (As Crianças Estão Assistindo) ou “Ladri di Biciclette” (Ladrões de Bicicleta), este último, Ladrões de Bicicleta (Vittorio De Sica), por mim assistido mais de uma dezena de vezes e considerado, também por mim, o mais perfeito filme da história, em razão de ser a expressão máxima do movimento Neorrealista italiano que, para quem não sabe, consiste no uso abusivo da realidade inserida em uma peça ficcional, sugerindo até, em algumas passagens e cenas, a possibilidade de um “filme documentário”, traduzindo a realidade social, econômica, política e cultural de uma época, no caso, a Itália do pós-guerra. Assim sendo, como técnica enfática, todos os fatores já mencionados são emoldurados por uma indução magistral à emoção através do uso, quase obrigatório, da criança como ponte ótica entre espectadores e enredo. Por conseguinte, os espectadores adultos, assumem a condição de partípices infantis do contexto sem a censura instintiva e defensiva inerente aos “maduros”, que tendem a distorcer a realidade visando amenizar os processos de identificação com a crueza humana contida nos desajustes sociais. Todavia, apesar da minha identificação pessoal, reconheço que temos obras cinematográficas muito mais recentes, qualitativamente tão boas, contendo todos os componentes do Neorrealismo italiano e, em alinho e adequação com novos recursos tecnológicos que só enaltecem a obra e, essencialmente, por traduzir a realidade social, econômica, política e cultural de nossa época, mesmo que o foco geográfico ainda seja a Itália. Este é o caso de “Nuevo Cinema Paradiso” (Cinema Paradiso), do então (1988), jovem diretor, Giuseppe Tornatorre, que encantou o mundo com um espetáculo de sensibilidade, embalado pela magnífica trilha sonora de Ennio Morricone, além de usar todas as técnicas que dispunha em tributo a Vittorio De Sica. Resultado, Oscar de melhor filme estrangeiro. Posteriormente, em uma linha bem diferente, o senhor Giuseppe Tornatorre dirigiu “La Sconosciuta” (A Desconhecida) que consiste em um drama, relativamente pesado, com cenas fortes em razão do tema, porém terno, muito terno. Enfim, conhecer a origem das coisas não determina que sejamos obrigados a nos prender a elas, muito pelo contrário, origem é indicativo de caminho, gostos e tendências.
Um discípulo apaixonado é, potencialmente, um mestre.

Herbert
Nenhum comentário:
Postar um comentário